O dólar está morrendo ou o Bitcoin está apenas aprendendo a andar?

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Outro dia, durante um jantar com amigos que não são do mercado financeiro, a conversa inevitavelmente migrou para o preço das coisas. Alguém reclamou que o café na esquina agora custa o dobro do que custava há três anos. Outro retrucou dizendo que o dólar estava “forte” em relação ao real. Foi nesse momento que percebi a enorme dissonância cognitiva que paira sobre a economia global. Existe uma diferença brutal entre o valor nominal de uma moeda e o seu poder de compra real. A pergunta que ficou no ar, e que serve de base para esta reflexão, é se estamos assistindo ao fim da hegemonia da moeda fiduciária ou se estamos apenas impacientes demais com o crescimento de uma nova classe de ativos. Para entender se o dólar está morrendo, precisamos definir “morte”. Se você olhar para o índice DXY (que mede a força do dólar contra uma cesta de moedas estrangeiras como Euro e Iene), a moeda americana parece um fisiculturista. Ela é a camisa menos suja do cesto de roupa suja. Mas, se você mudar a perspectiva e medir o dólar contra ativos escassos — imóveis, ações de empresas sólidas, ouro ou Bitcoin — o cenário é de uma hemorragia lenta e constante. O cenário macroeconômico pós-2020 nos ensinou uma lição dura sobre liquidez. Quando os bancos centrais expandiram a base monetária em trilhões para combater a crise sanitária, eles não “criaram valor”; eles diluíram o estoque existente. O dólar não está morrendo no sentido de desaparecer amanhã, mas está perdendo sua função de reserva de valor de longo prazo. Ele se tornou excelente para transações, mas péssimo para poupança. É um cubo de gelo derretendo no bolso de quem segura caixa. Do outro lado desse ringue monetário, temos o Bitcoin. E aqui reside o erro comum de análise: julgar o Bitcoin como se fosse um ativo maduro, com séculos de história. A verdade é que 15 anos, em termos de história monetária, é um piscar de olhos. O Bitcoin não é um adulto formado; é um adolescente brilhante, mas temperamental, que acabou de entrar na faculdade. A volatilidade que tanto assusta os investidores institucionais e o varejo é, na verdade, o processo de descoberta de preço em tempo real. Estamos falando de um ativo que saiu do zero para uma capitalização de mercado superior a um trilhão de dólares sem um departamento de marketing, sem um CEO e enfrentando hostilidade regulatória inicial. Isso não é trivial. Quando observamos a aprovação dos ETFs à vista nos Estados Unidos, vemos um rito de passagem. O Bitcoin está “aprendendo a andar” nos corredores de Wall Street.

Isso muda a estrutura do mercado. Antes, o preço era movido quase exclusivamente por varejo e baleias em exchanges não reguladas, sujeito a alavancagem excessiva e liquidations em cascata. Agora, com a entrada de gestoras gigantescas, a profundidade do mercado aumenta, mas a correlação com o mercado tradicional também se estreita. No entanto, o Bitcoin ainda tropeça. A experiência do usuário em fazer a autocustódia — gerenciar suas próprias chaves privadas — ainda é uma barreira técnica intimidadora para a maioria. Enquanto a frase “not your keys, not your coins” for um aviso de perigo em vez de um padrão de comportamento simples e intuitivo, saberemos que a tecnologia ainda está na infância. As soluções de Layer 2 estão tentando resolver a escalabilidade para pagamentos, mas a fricção ainda existe. Não estamos necessariamente diante de um jogo de soma zero imediato, onde o dólar precisa colapsar para o Bitcoin vencer. O cenário mais provável para a próxima década é uma convivência desconfortável.