dor de garganta constante pode ser câncer
Imagine que você acorda e, ao tentar chamar alguém no quarto ao lado, o som simplesmente não sai. Não é uma rouquidão passageira de um resfriado, mas um silêncio denso, que trava na garganta. Para muitos dos meus pacientes, esse não é um exercício de imaginação, mas a realidade nua após o diagnóstico de um câncer de laringe avançado ou de uma paralisia das pregas vocais. Recentemente, acompanhei o caso de um professor de história, o Sr. Carlos. Para ele, a voz era sua ferramenta de trabalho, sua identidade e seu modo de se conectar com os netos.
Quando explicamos a necessidade de uma laringectomia total — a remoção da laringe para salvar sua vida de um carcinoma epidermoide —, o medo da morte foi rapidamente substituído pelo pavor do silêncio. “Doutor, como eu vou ser eu mesmo se não puder falar?”, ele me perguntou. Essa é a ferida invisível da cirurgia de cabeça e pescoço. A laringe não é apenas um tubo que leva ar aos pulmões; ela é o nosso instrumento musical primário. Quando a perdemos, ou quando ela é severamente comprometida por tumores ou infecções profundas, o impacto emocional é comparável ao luto. Existe um isolamento social imediato.
O paciente para de frequentar jantares porque não consegue acompanhar o ritmo da conversa; ele evita o telefone; ele se sente, muitas vezes, invisível. No entanto, a medicina moderna e a fonoaudiologia especializada transformaram esse cenário de “fim de linha” em um processo de recomeço. A reabilitação não começa no pós-operatório, mas no momento do planejamento cirúrgico. Hoje, dispomos de tecnologias que buscam devolver a função fonatória de formas distintas. Uma das mais eficazes é a prótese traqueoesofágica. Durante a cirurgia, ou em um segundo tempo, criamos uma pequena comunicação entre a traqueia e o esôfago onde inserimos uma válvula de silicone.
O paciente aprende a direcionar o ar dos pulmões para o esôfago, fazendo os tecidos da garganta vibrarem e produzirem som. É uma voz mais grave, mas fluida, que permitiu ao Sr. Carlos voltar a contar histórias para os netos. Existem também outras frentes, como a voz esofágica (técnica onde o paciente “engole” o ar e o projeta de volta) e o uso da laringe eletrônica. Além disso, em casos de tumores menores, as técnicas minimamente invasivas, como a cirurgia a laser ou robótica, permitem retirar a lesão preservando a maior parte da estrutura da laringe, o que reduz drasticamente as sequelas na fala e na deglutição (a disfagia).